Com base no painel da Harvard Divinity School: Espiritualidade em Doenças Graves e Saúde, com a participação da Dra. Tracy Balboni, da Reverenda Gloria White Hammond, da Dra. Anna Gosline, da Reverenda Ali Jablonsky e do Dr. David Rosmarin.
Olá, olá! Estou me abstendo de expressar minhas opiniões nesta série de artigos deliberadamente, porque espero que vocês foquem unicamente na ciência da espiritualidade.
A Dra. Miller menciona, no meu artigo anterior, a revista JAMA. Então, tive que visitar o raio da tal JAMA e encontrar o estudo apresentado pelo painel no YouTube. Vale muito a pena conferir na íntegra!
Mas farei o meu melhor para transmitir o que aprendi durante as minhas pesquisas, prometo de dedinho.

A confissão que iniciou o incêndio
A Dra. Tracy Balboni (apresentadora da pesquisa) passou anos como radiooncologista. Ela era cuidadosa e profundamente dedicada aos seus pacientes, sempre verificando cada exame, cada marcador e cada detalhe físico com a precisão exigida por sua formação.
Até que, um dia, ela teve que contar a um paciente que seu câncer era terminal.
E a resposta dele a deixou totalmente sem saber o que fazer:
“Se eu soubesse que seria assim, teria me matado antes.”
Tracy passou anos se concentrando nos aspectos físicos do sofrimento. E ao fazer isso, perdeu completamente de vista a sua principal origem.
Aquele momento tornou-se a questão central de um dos estudos mais abrangentes já realizados sobre espiritualidade e saúde, publicado na JAMA, uma das revistas médicas mais prestigiadas do mundo.

Por que esse estudo demorou tanto para existir?
Trago uma novidade chocante para você, meu jovem padawan: a espiritualidade faz parte da definição de saúde da Organização Mundial da Saúde há mais de duas décadas!
Em 1948, a OMS definiu saúde como um “estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não meramente a ausência de doença”. A espiritualidade ainda não tinha um nome em si, mas a porta estava se abrindo lentamente. Aguente firme.
Em 2002, a definição de cuidados paliativos da OMS reconheceu explicitamente a espiritualidade como um componente fundamental dos cuidados, juntamente com a saúde física e psicológica.
No entanto, na maioria dos hospitais, ninguém fala sobre isso. (Cri, cri!)
A pesquisa já existia, mas não estava sendo publicada nos jornais certos nem levada a sério em ambientes clínicos. Então, Tracy e sua equipe de heróis decidiram mudar isso.

O que 16.000 artigos finalmente revelaram sobre espiritualidade
O estudo começou com uma revisão sistemática da literatura de 2020 a 2023, abrangendo a espiritualidade em doenças graves e seus impactos na saúde pública.
Dezesseis mil f*cking artigos!
A partir desses artigos, as evidências mais robustas foram reduzidas a 441 artigos sobre espiritualidade e doenças graves e 276 artigos sobre desfechos de saúde. Um painel Delphi (um método estruturado que envolve múltiplos especialistas de diversas disciplinas) analisou os dados qualitativos e quantitativos que embasavam essas evidências.
O que eles descobriram foram oito fortes indícios de doenças graves e oito resultados concretos relacionados à saúde. E ambos os conjuntos se espelhavam de uma maneira impossível de ignorar.

As evidências: o que acontece quando a espiritualidade está ausente
Pacientes com doenças graves que não tinham apoio espiritual relataram:
- Maior sofrimento psicológico e desespero
- Qualidade de vida inferior nos últimos meses antes da morte
- Uma profunda sensação de falta de propósito que nenhum cuidado físico poderia resolver
- Sentir-se invisíveis, não apenas por causa da doença, mas por todo o sistema que deveria cuidar deles
A ausência de cuidados espirituais foi associada aos piores resultados. Mas o que acontece quando a espiritualidade é levada a sério?

As evidências: o que acontece quando a espiritualidade está presente
Os pacientes cujas necessidades espirituais foram reconhecidas e atendidas apresentaram um cenário totalmente diferente:
- Taxas significativamente menores de depressão profunda
- Maior resiliência sob estresse físico e emocional
- Um senso mais profundo de conexão e propósito, mesmo em diagnósticos terminais
- Melhor envolvimento com seus próprios cuidados e tratamento
No meu artigo anterior, vimos como a pesquisa de neuroimagem da Dra. Lisa Miller acrescentou mais uma camada a tudo isso: o cérebro espiritual é literalmente diferente em termos estruturais, mais desenvolvido nas regiões responsáveis pela consciência, pela empatia, pela percepção e pela resiliência.
É possível medir a espiritualidade, babe!

Quatro vozes internas
O painel que elaborou esta pesquisa incluiu capelães, médicos, psicólogos e líderes comunitários que passaram anos acompanhando pessoas em seus momentos de maior vulnerabilidade. E aqui está o que quatro deles descobriram:

Gloria: Os espaços que esquecemos de construir
A reverenda Gloria White Hammond é médica e ministra, uma combinação que pode parecer incomum até que você pare por cinco minutos para pensar no que a doença realmente faz com as pessoas.
Ela chamou a atenção para algo que os dados confirmavam, mas que raramente é mencionado claramente: a ausência de espaços onde pessoas de diferentes religiões possam expressar suas crenças e, ainda assim, se sentirem acolhidas.
Para muitos pacientes (particularmente para as minorias), os hospitais são espaços que historicamente não os viram, não os ouviram e não validaram seus sofrimentos.
O argumento de Gloria foi direto: se queremos que a espiritualidade faça parte dos cuidados de saúde, precisamos construir a infraestrutura necessária, incluindo espaços físicos, competência cultural e espaço amplo para a diversidade.
Isto não é uma utopia. É uma necessidade clínica!

Anna: A pergunta que ninguém te faz em um hospital.
A Anna Gosline também participou do painel com vasta experiência em cuidados a pacientes com doenças graves. A observação dela foi simplesmente devastadora: quase nenhum médico pergunta o que faz um paciente feliz.
Eles não foram treinados para enxergar qualquer conexão entre felicidade, propósito e o corpo deitado na maca à frente deles!
Então, Anna e sua equipe começaram a perguntar por aí. E as respostas os surpreenderam bastante.
As perguntas eram muito abstratas no início: “O que te faz feliz? O que dá sentido à sua vida?”
E os pacientes que passaram meses sendo tratados como um conjunto de sintomas simplesmente não sabiam como reagir.
Então, a equipe se adaptou e passou a ser mais específica: “De quais atividades você gosta? O que você mais espera? O que você gostaria de fazer quando sair daqui?”
A partir daquele momento, os pacientes começaram a responder. E as respostas mudaram a forma como o atendimento era prestado naquele espaço.
Anna também observou que a maioria dos pacientes tem medo de discordar de seus médicos, porque temer que isso possa afetar a qualidade do atendimento. Muitos relataram sentir-se julgados por seu estilo de vida, crenças e fé.
E quase todos os pacientes de origem minoritária relataram a mesma coisa: “Me senti invisível”. Nenhum desses pacientes esperava milagres ou uma medicina perfeita. Tudo o que eles queriam era que alguém se sentasse à sua frente e dissesse: “Vamos achar uma solução juntos”.
Será que eles estavam pedindo demais?

Ali: Espiritualidade sem rótulos
A reverenda Ali Jablonsky supervisiona UTIs e atua como capelã. Ela aprendeu, da maneira mais difícil, que entrar em uma sala e se apresentar como capelã às vezes é a maneira mais rápida de afastar as pessoas.
Ela se lembra de uma jovem que aguardava um transplante de coração e que lhe disse, de forma bem clara e sem rodeios:
“Não sou religiosa. E se você está falando de espiritualidade, eu também não sou uma pessoa espiritual!”
Então a Ali teve que encontrar outra maneira de fazer a dinâmica funcionar, com pacientes que não queriam ter nada a ver com o rótulo da espiritualidade.
O time dela instalou um salão de beleza no hospital. Em outra ocasião, fizeram uma faixa com galinhas de tutu. E eles também adotaram o Bob, um cachorro de serviço que se tornou, como Ali disse, “um tipo diferente de profissional de saúde”.
Numa sessão de beleza, uma paciente pediu bobs no cabelo e confessou que se arrumar sempre lhe dava uma sensação de aconchego, quase como ir à igreja. O marido trouxe de presente para a equipe uma planta artificial decorada com mini-bobs em todos os galhos, agradecendo-lhes por fazerem com que a sua esposa se sentisse vista pela primeira vez em sua longa jornada de cuidados com a saúde.
Ali também trabalha com pacientes que vêm de ambientes religiosos inseguros, pessoas para quem a palavra espiritualidade representa uma ameaça em vez de conforto. E para esses pacientes, um cachorro, uma sessão de beleza ou um ritual familiar podem oferecer o que nenhuma escritura pode.
Como uma pessoa queer, ela sabe exatamente o quão perigosas essas palavras podem soar.
Por isso, ela passou a traduzir. Em vez de perguntar sobre espiritualidade, ela pergunta:
- Onde você encontra significado?
- Quais são os marcos importantes da sua vida?
- O que te traz esperança?
- Quando e onde você se sente seguro(a)?
- Para onde você se volta quando está com medo?
- Quando você se sente mais autêntico(a)?
- Quando você se sente parte de algo maior do que você mesmo?
E ela abre espaço para todas as respostas. Segundo ela, para um profissional fazer esse tipo de pergunta, é preciso, primeiro, ser capaz de respondê-las.

Dave: Ciência com quipá
O Dr. David Rosmarin é um psicólogo clínico e também um judeu praticante que usa seu precioso kippá todos os dias no hospital. Isso fez com que os pacientes o procurassem regularmente para discutir Deus, fé, injustiça e a raiva muito específica que as doenças graves tendem a provocar.
A princípio, ele não sabia o que fazer com isso. Foi até seu conselheiro (que, aliás, era ateu de carteirinha), que lhe disse, basicamente, para dar um jeito, já que as necessidades espirituais dos pacientes não estavam sendo atendidas.
Então, o Dave elaborou cuidadosamente um grupo de TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental) integrado à espiritualidade e o apresentou ao conselho do hospital. Resultado: o grupo se tornou um dos mais populares de todo o programa!
A pergunta que ele mais ouvia era uma que ele confessa não conseguir responder com precisão: Por que Deus está fazendo isso comigo?
E o Dave não tentou adivinhar a resposta. Em vez disso, ele refletia sobre ela, validava a pergunta, o sentimento e a fúria por trás de tudo isso. Ele criou o que nomeou de segurança psicológica, um espaço onde a versão mais vulnerável de uma pessoa pode existir sem ser consertada, redirecionada ou controlada.
E expressou sua opinião com a confiança de quem possui dados para comprovar sua ciência: humanizar o tratamento é comprovadamente eficaz.
E, como ele argumenta, já passou da hora do cuidado (e não o dinheiro!) ditar como o sistema de saúde realmente funciona.

No que todos concordaram
Oito pontos de evidência em doenças graves, oito em resultados de saúde e três paralelos claros entre eles:
- Inclusão – A espiritualidade deve ser integrada ao cuidado de pacientes gravemente doentes e à saúde comunitária, não como um complemento opcional, mas como um componente essencial.
- Educação – As equipes de saúde precisam de treinamento. Não para se tornarem capelães, mas para se tornarem o tipo de profissional que sabe fazer as perguntas certas e refletir sobre as respostas.
- Infraestrutura – Os capelães devem estar presentes em todos os ambientes clínicos, integrando a espiritualidade, reconhecida como determinante social da saúde, à pesquisa em saúde pública, ao trabalho comunitário e aos programas. É preciso construir os sistemas necessários para que isso aconteça!

A questão que tudo isso deixa:
A Anna formulou a pergunta da melhor maneira, e eu não parei de pensar nisso desde que me deparei com essa pesquisa pela primeira vez: “O que há em nossa comida, água ou cultura que simplesmente decidimos que é normal não nos importarmos?”
Não nos importamos com os pacientes. Com nossos médicos. Nem com o que faz uma pessoa se sentir humana, especialmente quando seu corpo falha.
Construímos um sistema de saúde extraordinário no tratamento físico. E, em algum momento do processo, silenciosamente, decidimos que o resto — o significado, o medo, a fé, o luto, a identidade, aquilo que faz alguém se sentir ela mesma — é problema de outra pessoa.
Após dezesseis mil artigos, felizmente começamos a perceber os paralelos entre ciência e espiritualidade. Depois de consultar quase cem profissionais e sair me sentindo completamente sem esperança, dou muito valor ao trabalho que esses cientistas estão finalmente realizando.
Fontes:
Painel da Harvard Divinity School — Espiritualidade em Doenças Graves e Saúde. Com a participação da Dra. Tracy Balboni (Dana-Farber Cancer Institute / Harvard Medical School), da Rev. Gloria White Hammond MD MDiv, da Anna Gosline SM, do Rev. Ali Jablonsky MDiv e do Dr David H. Rosmarin PhD (Harvard Medical School). Resultados publicados na JAMA.
Leitura adicional:
O Cérebro Desperto — Dra. Lisa Miller, Universidade de Columbia