
Como é viver no gueto? O que marca e transforma a experiência de crescer em uma quebrada brasileira?
⚠️ Aviso: Este post não é recomendado para crianças e contém gatilhos referentes à violência, ao abuso sexual e ao suicídio. Leia com cautela.

Neste post, vou dividir um pouquinho das minhas experiências como estatística viva, para mostrar de perto a complexidade dessa realidade.
Se você já se perguntou como é nascer e crescer na quebrada, vou poupar seu tempo e tentar pintar a paisagem mais realista possível.
Outra coisa: agradeça que você só vai precisar imaginar, porque, felizmente, isso não faz parte da sua bolha.
Eu passei a maior parte da minha vida com vergonha de meus amigos e crushes saberem que morava em uma casa toda mofada e sem portas, em César de Souza, em Mogi das Cruzes, no subúrbio de São Paulo.
O lugar onde cresci não chega a ser uma favela per se, mas é uma área bem tensa.
A vida na quebrada é repleta de surpresas, e muitas vezes, estas surpresas são bem zoadas.
Rola uma exposição gratuita de armas, uns arrastões, a polícia utilizando abordagens violentas como de costume, buracos do tamanho do mundo com uma árvore dentro (já que não existe sinalização), vizinhos queimando móveis na rua e assim por diante.
Quando eu tinha 14 anos, levei meu primeiro choque de realidade: uma menina que eu conhecia e com quem brincava na rua morreu jogando roleta-russa com o irmão e a cunhada.
Outra colega, que também brincava comigo na rua quando criança, morreu aos 16 anos.
O namorado a enrolou em um colchão e a ateou fogo durante uma “saidinha” da cadeia.
Na rua em frente à casa onde cresci, morava uma família em que a mãe havia falecido e os irmãos mais velhos foram todos presos por tráfico.
Acabou que restou apenas um adolescente de treze ou quatorze anos cuidando dos menores, e a vizinhança ajudava como podia, embora ninguém por ali tivesse muito a oferecer.
Pessoalmente, já passei por algumas situações de m*rda e, há dois anos, meu irmão levou um tiro de um guardinha municipal no rosto e outro que atravessou o intestino pelas costas e saiu pela barriga, dentro da casa dos meus pais.
Sou grata porque ele sobreviveu e porque o guardinha municipal que atirou nele foi preso.
Quantos casos terminam com vítimas fatais e, ainda por cima, sem qualquer forma de justiça?
Mesmo assim, foi um processo muito difícil para a nossa família.
Me perdoem por começar este post de forma tão pesada, mas preciso ser honesta para mostrar a quebrada como ela realmente é.
Talvez assim você consiga enxergar além da glamourização que a TV insiste em vender.

Por que a vida na quebrada virou símbolo de estilo e romantização na cultura popular, quando a
realidade é tão dura?
Na música “Poetisas no Topo 2”, a rapper Ebony diz algo que ressoa na minha alma desde a primeira vez que ouvi:
“Quando eu tava no corre, tu não queria ser cria, né?”
“Cria”, para quem não sabe, é uma gíria do RJ, usada para se referir a pessoas que nasceram e foram criadas na favela e nas quebradas.
De repente, a galera toda passou a achar super descolado e radical falar que veio da quebrada, inclusive alguns que nem vieram de lá.
Por que isso aconteceu?
Vários fatores se cruzam, e eu vou te mostrar os principais, segundo minhas pesquisas.
Segura essa visão:
- A influência da mídia
Filmes, séries e redes sociais adoram mostrar os desafios e os triunfos de quem vem de comunidades marginalizadas, porque isso vende.
Por um lado, destaca a resiliência, a lealdade e as histórias reais da quebrada.
Mas, por outro lado, acaba atraindo gente que nem nasceu no gueto, transformando a realidade em produto e romantizando sofrimento alheio com fins comerciais. - A ascensão dos gêneros musicais da quebrada
O rap, o hip-hop, o funk, o pagode e o samba mudaram completamente a forma como a sociedade enxerga a vida na quebrada.
Os ‘crias’ famosos compartilham suas histórias nas redes sociais, criando conexão e pertencimento. Mas, ao mesmo tempo, isso pode abrir espaço para narrativas falsas e transformar a violência e o crime em espetáculo ou em objeto de glamour. - Escapismo e Fantasia
Para alguns, a glamourização da vida no gueto funciona como uma fuga das suas próprias realidades.
Em busca de adrenalina, rebeldia ou pertencimento, muitos se identificam com a cultura da quebrada, mesmo que ela não reflita suas vidas.
O problema surge quando essa identificação se transforma em apropriação: fingir viver o que não se vive, sem respeito pela história e pela realidade de quem realmente nasceu e cresceu ali. - Apropriação Cultural
Com a popularidade do estilo de vida das favelas e guetos, certos elementos da cultura foram apropriados e transformados em tendências, criando uma versão distorcida ou romantizada de uma realidade já complexa e sofrida.
No processo, apaga-se o protagonismo de quem realmente vive e constrói essa história, reduzindo experiências reais a produto ou estética. - Fatores socioeconômicos e Apelo Contracultural
As desigualdades econômicas e as falhas estruturais da sociedade estão cada vez mais visíveis.
A romantização da vida na quebrada acaba refletindo a insatisfação de muitos com as regras e convenções sociais, celebrando modos de viver que fogem do padrão, mesmo que, para quem vive de verdade, essas escolhas muitas vezes não sejam uma opção, mas uma necessidade.
É preciso sabedoria ao escolher a mensagem que queremos transmitir por meio de nossos traumas, conquistas e experiências do passado.
Como o MC Marechal disse em Favela Vive 5: “Ignorante é abraçar esses caô do opressor, só fala de marca, marcam alguns jovens que ainda não distinguem entre preço e valor.”

Ser um agente de releitura da pobreza e da história das quebradas, inspirando outros a lutar pela igualdade, é infinitamente mais valioso do que qualquer like de desconhecidos no Instagram.
Desejo que você tenha coragem para contar seu relato com firmeza e sabedoria, porque só narrativas genuínas têm o poder de realmente mover pessoas.
E essas vozes são mais necessárias do que nunca!

Quatro lições e habilidades sociais que a quebrada me ensinou e que você também pode levar para a vida:
Comecei meu texto destacando o lado difícil de viver na quebrada.
Não recomendo visitar favelas ou guetos apenas por turismo, porque quem mora ali não está em exibição. São pessoas de verdade, com histórias e desafios reais.
Se você se permitir mergulhar de verdade na cultura local e absorver a sabedoria da quebrada, sairá com lições para a vida inteira.
Estas são algumas das que levarei para sempre dos meus dias em César de Souza:

💡 A vida na quebrada vai te fazer chorar, mas, ao mesmo tempo, vai te transformar em super-humano!
Sério, na hora do aperto, tu descobre uma força dentro de ti mesma que nem sabia existir!
Eu fiquei totalmente chocada na primeira vez que vi alguém apontar uma arma para outra pessoa bem na minha frente; foi como se o mundo tivesse congelado por alguns segundos.
Mas depois de algumas armas apontadas diretamente para mim, me tornei o tipo de mulher que viaja sozinha para viver com uma comunidade indígena no coração do Pantanal, suavinho!
A vida te força a amadurecer antes da hora para sobreviver e se proteger.
Seja do crime, da violência policial ou do preconceito sistêmico que muitos despejam sobre os mais desfavorecidos, em vez de realmente agir.

💡Se tu não fizer o seu, ninguém fará no seu lugar.
Não estou falando de meritocracia aqui, que fique bem claro. Mas se tu não fizer teu próprio corre, um total de zero pessoas fará no teu lugar.
O discurso da meritocracia é uma lenda, mas a ideia de que o pobre tem que nascer e morrer coitado também não passa de baboseira.
Já nascemos com a senha do fim da fila da sociedade e, por isso, precisamos ser três vezes melhores para conquistar nosso espaço em instituições padronizadas.
E se, mesmo dando tudo de nós, isso ainda não garante sucesso, imagine o que aconteceria se nem tentássemos?
Seja aquele ser embaçadx que rompe os ciclos da pobreza e da ignorância na sua árvore genealógica.
Ao longo do seu trajeto, tu vai trombar com quem te estenda uma mão amiga, mas pode ter certeza de que ninguém fará o que cabe a você.
Esteja ciente de que muitxs tentarão menosprezar seu corre, duvidarão da sua capacidade e tentarão deixar bem claro que você não pertence.
Mas lembre-se do quanto você aguentou até hoje e do quão gorilão da bola azul você é, e não permita que ninguém te faça duvidar do seu valor e do destino que tu traçou para a sua vida!

💡 Justiça é um termo que só existe no dicionário.
Camarada, a verdade é que a vida não é justa e aceitar isso dói menos.
Sem querer me fazer de vítima, preciso compartilhar que sou apenas mais um entre um milhão e quinhentos casos de abuso infantil, para que você saiba que também enfrentei essas dificuldades de perto.
Mas, parça, vida que segue!
E se eu não fosse ‘cria’ da quebrada, talvez eu nem estivesse aqui hoje escrevendo este post.
E olha que tive que chegar bem pertinho de bater as botas para aprender que era hora de deixar de sentir pena de mim mesma e adotar uma mudança radical.
Depois que meu irmão sofreu uma tentativa de assassinato em 2023, passei alguns meses chorando novamente, questionando por que isso aconteceu, por que a vida é tão injusta e por que ser pobre é tão pesado.
Naquela época, eu postava #JustiçaParaPedro nas redes sociais, tentando pressionar o prefeito e as autoridades para que agissem.
Foi então que o Facebook passou a me sugerir conteúdos inesperados.
Um adolescente foi assassinado pela polícia apenas por carregar um guarda-chuva, confundido com um fuzil.
Outro menino, caminhando para casa na Bahia, foi esfaqueado por um racista bêbado e não resistiu.
Esses relatos me deixaram desesperada, mas, ao mesmo tempo, grata, porque, por muita sorte ou por intervenção do Universo, meu irmão está vivo.
O fi de uma quenga, (desculpa, mãe), ainda correu 10 km na praia, pouco mais de dois meses depois de ter levado os tiros!
E eu? Descobri que o que realmente faz meu coração bater mais forte é viajar.
Até agora, já visitei quinze países e vivi em quatro, colecionando experiências que mudaram completamente a minha forma de ver o mundo!
A felicidade não é um estado permanente, beldades, assim como a tristeza também não é. Ambas vêm e vão, moldando quem somos.
Segura firme só mais um pouquinho e canalize suas energias para quebrar os padrões tóxicos que lhe foram impostos desde sempre.
Você é perfeitamente capaz de aprender com as sombras da sua vida e transformá-las em empatia e coragem, escrevendo uma nova história, desta vez mais colorida e fiel aos seus sonhos.

💡 O gueto te ensina a se defender e defender
aquilo em que acredita
Bullying, crime e abuso existem em todos os ambientes, e os mais pobres não estão imunes.
Algumas cicatrizes permanecem para sempre, marcas silenciosas de um mundo que raramente protege os vulneráveis.
A vida na quebrada é dura, mas te ensina a defender seus valores e crenças.
Mas uma vez que tu aprende a estabelecer limites saudáveis baseados no amor-próprio, camarada, tu conquista uma liberdade imensa!
Será uma jornada constante de cura e crescimento pessoal, cheia de altos e baixos.
Mas, ao longo do caminho, você se verá mais feliz e confiante de que é possível construir uma nova vida, mesmo com um passado repleto de traumas sombrios, transformando dor em força e aprendizado.
Continue firme na sua jornada, por mais que doa, pois o preço da desistência é muito mais alto.

O que levar deste post:
- Glamourização do gueto: o estilo de vida da quebrada se tornou popular e glamourizado na mídia.
Isso gera resultados positivos e negativos, e precisamos ter cuidado quando contamos nossas histórias se quisermos ser catalisadores de mudança.
Ao glorificar a quebrada, é essencial considerar o impacto coletivo.
A pobreza atrai as câmeras, mas não beneficia a comunidade. - Reinvente sua vida: apesar das cicatrizes e dos traumas, o universo segue se expandindo e se transformando a cada instante.
Você faz parte dessa imensidão e tem o poder de reinventar sua realidade com amor, limites saudáveis e resiliência. - Visite com propósito: Se tu planeja visitar uma favela ou qualquer tipo de quebrada, por favor, faça isso com um convite e com objetivos claros.
A experiência só terá valor se for guiada pela intenção de aprender e de apoiar, não de explorar.
Aprenda com as experiências das pessoas que vivem ali e leve para casa lições de igualdade e justiça social.
A pobreza não é um fenômeno isolado que precisa de heróis em busca de cliques. Quem mora na quebrada não é animal de zoológico.
Tenha empatia e respeito: acreditar que o mundo gira em torno do seu umbigo é uma ilusão, e cedo ou tarde você vai trombar com alguém que fará você estourar essa bolha.
E quando isso vem dos outros, dói dez vezes mais.
Se poupe, me poupe, nos poupe!

