


O que a medicina finalmente começou a entender sobre
o significado, o sofrimento e a cura
Nota de atribuição: Todos os dados e afirmações mencionados neste artigo foram extraídos da palestra da Dra. Tracy Balboni, da Harvard Divinity School, sobre espiritualidade e cuidados de saúde.
A medicina moderna dominou a arte de tratar o corpo.
Mas quando se trata de lidar com a experiência humana do sofrimento, bem…
Ainda estamos caminhando.
Durante décadas, os sistemas de saúde se concentram unicamente em sintomas físicos, diagnósticos e todos os resultados mensuráveis, muitas vezes negligenciando algo muito menos tangível, mas profundamente influente:
A espiritualidade.
Novamente, não estou falando de religião ou doutrina.
Estou falando da nossa necessidade essencial de significado, conexão e transcendência.
E como a combinação entre ciência e espiritualidade pode fazer uma enorme diferença na área da saúde.

O momento em que a medicina deixou passar algo essencial.
Na Parte 2 da minha pesquisa sobre ciência e espiritualidade, a Dra. Lisa Miller mencionou uma pesquisa publicada no JAMA.
Como te falei antes, este é um caminho sem volta.
Então, acabei encontrando a Tracy Balboni, uma pesquisadora de destaque envolvida em um importante estudo publicado no JAMA, que, em sua palestra, compartilhou o exato momento em que mudou a forma como compreendia o próprio trabalho.
Ela lembrou de um paciente a quem teve que dar uma notícia devastadora: o câncer dele era terminal.
A forma com a qual ele respondeu a tudo isso a deixou chocada:
“Se eu soubesse que seria desse jeito, teria me su*cidado.”
Do ponto de vista clínico, ela tinha feito tudo certo.
Ela examinou cada detalhe físico daquele homem e analisou todas as possibilidades médicas.
Até que ela percebeu: estava ignorando completamente a principal causa do sofrimento dele.

Por que os pesquisadores começaram a prestar atenção?
Este não foi um caso isolado.
Balboni e sua equipe começaram a analisar os padrões e a fazer uma pergunta crucial:
Qual o papel da espiritualidade na saúde e por que ela está sendo ignorada?
Eles identificaram duas realidades fundamentais:
- Há um número crescente de pesquisas que relacionam a espiritualidade aos resultados dos tratamentos.
- Mas a integração desse conhecimento nos sistemas de saúde é praticamente nula.
Apesar dos milhares de estudos no campo, a espiritualidade permaneceu praticamente ausente da prática clínica.
Os pesquisadores não publicam em revistas de alto impacto e, embora haja algumas melhorias, ainda existe um preconceito significativo contra o reconhecimento da espiritualidade na saúde.
Por isso, ela decidiu dar os primeiros passos rumo ao que espera (e eu também!), ser parte de uma mudança estrutural.

Uma mudança silenciosa na saúde global
As principais instituições já haviam reconhecido essa lacuna há algum tempo.
- Em 1948, a Organização Mundial da Saúde definiu saúde como: “um estado de completo bem-estar físico, mental e social”.
- Em 2002, a definição de cuidados paliativos foi ampliada para incluir as “dimensões físicas, psicológicas e espirituais”.
Sem enfatizar isso explicitamente desde o início, o sistema ainda assim reconheceu:
A saúde não é apenas biológica. Mas também existencial, minha quiche Lorraine.

O que as pesquisas realmente mostraram?
Para compreender o quadro completo, a Dra. Balboni e sua equipe realizaram uma revisão mais abrangente:
- Cerca de 16.000 artigos científicos foram analisados.
- 441 focou-se em doenças graves
- 276 focados em resultados positivos de tratamento
Um painel multidisciplinar avaliou as evidências mais robustas por meio do método Delphi.
Foram necessárias muitas mentes brilhantes, de diversas disciplinas, para chegar a essas conclusões.
E a que conclusão chegaram? A espiritualidade é fundamental na área da saúde.

Os padrões que emergiram
Tanto nos casos de doenças graves quanto nos resultados gerais de saúde, surgiram paralelos claros:
- A integração da espiritualidade melhora o atendimento ao paciente.
- Educar os profissionais da área da saúde melhora os resultados.
- Incluir apoio espiritual (como capelães) beneficia tanto os indivíduos quanto as comunidades.
E o mais importante:
Os pacientes não querem apenas tratamento. Eles querem se sentir vistos.
Portanto, é essencial criar espaços onde pessoas de diferentes religiões possam expressar suas crenças e se sintam acolhidas em momentos difíceis devido a doenças graves.

O problema: Nossos sistemas tratam pacientes, não pessoas.
A Dra. Anna Gosline, participante do painel do Dr. Balboni, observou algo profundamente perturbador:
Os sistemas de saúde treinaram as pessoas para agirem como pacientes, não como seres humanos.
Os médicos raramente perguntam:
O que é importante para você?
O que te faz feliz?
O que dá sentido à sua vida?
Essas perguntas soam muito abstratas.
Então a Dra. Anna e sua equipe começaram a adaptar seus métodos e a fazer perguntas um pouco mais diretas.

Quando os pacientes não conseguiram responder
Quando os pesquisadores começaram a perguntar aos pacientes sobre felicidade e propósito, muitos simplesmente não souberam responder.
Como ninguém lhes havia feito essa pergunta antes, ela era muito abstrata para eles.
Então, a Anna e a equipe dela simplificaram o processo:
O que você gosta de fazer?
O que torna o seu dia melhor?
Quando e onde você se sente seguro(a)?
Quando você é mais você mesmo(a)?
Quando você se sente parte de algo maior do que você?
E de repente, as pessoas começaram a se abrir.
A assistência médica se tornou um esforço de equipe, e os médicos passaram a ter uma melhor compreensão de como apoiar as pessoas no dia a dia delas.

O medo silencioso dentro dos hospitais
Outra descoberta interessante da pesquisa de Balboni:
Muitos pacientes não têm grandes expectativas em relação aos seus tratamentos e têm medo de questionar seus médicos, por medo de serem julgados, de receber um atendimento pior ou de não serem levados a sério.
Grupos minoritários, em particular, relataram sentir-se invisíveis e ignorados durante os tratamentos médicos.
Quando a equipe profissional perguntou o que seus pacientes realmente queriam, a resposta foi simples:
“Alguém que diga: ‘Vamos trabalhar e descobrir isso juntos!'”

Redefinindo ciência e espiritualidade na área da saúde.
Dra. Ali Jablonski, outra participante do painel da Dra. Balboni, capelã hospitalar, relatou ter enfrentado um desafio inusitado.
Uma de suas pacientes falou para ela, em tom bem firme:
“Não sou religiosa. E se você vai falar de espiritualidade… bem, eu também não sou espiritual!”
Então, como você pode apoiar alguém que rejeita ambas as opções? Redefinindo sua linguagem!

Espiritualidade sem a palavra espiritualidade
Em vez de perguntar sobre religião ou crenças, a equipe da Dra. Balboni começou a perguntar:
Onde você encontra significado?
Quando você se sente seguro(a)?
O que lhe dá esperança?
Quando você se sente mais você mesmo(a)?
E para essas perguntas, todos todo mundo tinha resposta.
Não se tratava de certo ou errado. A espiritualidade não se baseia em rótulos, é uma experiência que acolhe as pessoas como elas são.
A cura nem sempre tem uma aparência clínica.
Às vezes, o cuidado não se parece em nada com medicina.
Ali precisou encontrar uma maneira de ajudar todos os tipos de pacientes.
- Ela fez uma faixa com galinhas de tutu com uma paciente, montou um salão de beleza no hospital para outra, e assim por diante.
- Durante uma sessão de beleza com uma paciente que pediu cachinhos no cabelo, ela confessou que frequentar o salão de beleza sempre lhe deu uma sensação de aconchego, quase como ir à igreja.
- O marido da paciente trouxe para a equipe uma planta artificial (já que não podiam ter plantas de verdade) com rolinhos de cabelo em cada galho e agradeceu por fazerem sua esposa se sentir vista pela primeira vez durante sua longa jornada de tratamento.
- A equipe da Ali também adotou Bob, o cãochorrinho de serviço do hospital, que é um profissional de saúde um pouquinho diferente.
- Eles também lidavam com pessoas que vinham de ambientes religiosos inseguros e se sentiam ainda mais vulneráveis em um hospital. Nesses casos, os animais podem oferecer uma camada extra de segurança.
Como capelã queer não religiosa, ela define espiritualidade como “um aspecto dinâmico e intrínseco da humanidade através do qual uma pessoa busca significado, propósito e transcendência. Uma relação vivenciada consigo mesma, com os outros, com a comunidade, com a sociedade, com a natureza e com seu significado ou sacralidade”.
Momentos como estes podem parecer pequenos.
Mas para os pacientes, representam ser vistos. Ser humanos.
Simplesmente serem!

Quando a espiritualidade encontra a ciência
O Dr. David H. Rosmarin é um rabino, psicólogo clínico e outro participante do painel de Balboni.
E ele foi ainda mais adiante.
Em resposta ao pedido de seu conselheiro ateu, ele criou um grupo de terapia cognitivo-comportamental integrada à espiritualidade para o hospital onde trabalhava.
Apesar da resistência inicial dos colegas, o curso rapidamente se tornou um dos programas mais populares do estabelecimento.
Por que?
Porque os pacientes faziam perguntas que a ciência sozinha não conseguia responder.
Perguntas como:
Por que isso está acontecendo comigo?
Onde está Deus em tudo isso?
O que significa esse sofrimento todo?
E o Dr. Rosmarin não tinha todas as respostas. Mas ele se sentou com aquelas pessoas e validou suas perguntas, sentimentos e dificuldades.
De acordo com Dave, quando ele e sua equipe discutiram espiritualidade em um contexto científico, eles se concentraram em fornecer atendimento de alta qualidade a cada paciente e em humanizar o processo de tratamento.

O futuro da saúde
Considerando todas essas perspectivas, ficou claro que a assistência médica não se resume apenas à cura de doenças, mas também ao cuidado com a experiência humana de viver.
E isso inclui:
- Significado
- Propósito
- Conexão
- Pertencimento
Em termos simples, a espiritualidade faz parte do que nos torna humanos.
Então, em vez de se perguntar: “Será que a espiritualidade deveria fazer parte dos cuidados de saúde?”, comece a refletir sobre: ”Como raios pudemos pensar que não?”

A cura completa
Com a intersecção entre ciência e espiritualidade, uma visão mais completa de cura está emergindo.
Uma visão onde os pacientes não são mais reduzidos aos sintomas.
Um ambiente onde os profissionais clínicos não se limitam a protocolos.
E onde o cuidado não depende apenas do dinheiro.
Mas seja oferecido por meio da presença, da comunicação aberta, da compreensão e da humanidade.
A cura não se completa apenas consertando seu corpo sexy.
Existe todo um sistema dentro da sua bela carcaça, coisinha!
Já passou da hora de nos responsabilizarmos pelos nossos atos.
E cuidar de nós, como seres humanos completos que somos. 💛✨
Como a assistência médica mudaria se cada interação clínica começasse com: “O que faz você se sentir mais vivo(a)?